André Villas Boas já não é treinador do Futebol Clube do Porto. O jovem técnico foi contratado no início da semana pelos ingleses do Chelsea, graças à "persuasão" de Roman Abramovich. 15 milhões de euros, foi quanto custou a transferência, a maior de sempre de um treinador. Villas Boas tem nova cadeira de sonho, esta paga a peso de ouro.
Ao longo da época que findou, foram-se intensificando os rumores sobre interessados e possível transferência do agora, ex-treinador dos dragões. Liverpool, Inter de Milão, Juventus e, obviamente o Chelsea, foram os clubes de maior nomeada a serem associados ao técnico. De todos, aquele que sempre pensei que de facto teria hipóteses reais de o contratar, era o Chelsea.
Os clubes italianos não parecem aperceber-se ou reconhecer do real valor de jogadores e treinadores portugueses. Recusam-se sempre a aproximar-se dos valores pedidos, afirmando que são preços desmedidos e que não estão de acordo com o real valor dos activos em questão. Daí já não se verem grandes jogadores portugueses a rumarem ao Calcio, como em tempos aconteceu com homens como Rui Costa, Futre, Fernando Couto, Dimas ou Sérgio Conceição.
Quanto ao Liverpool, acredito que os novos donos vissem com bons olhos a chegada de AVB, mas a maioria dos adeptos não perdoaria a "traição" a "King" Kenny Dalglish, antiga glória dos reds (tanto como jogador como treinador), homem que surgiu no lugar de Roy Hodgson e ressuscitou o Liverpool. Além de que gastar 15 milhões num treinador, retiraria alguma margem de manobra ao clube para se movimentar no mercado em busca de reforços, algo que o Liverpool necessita.
Sobrava, portanto, o Chelsea. Orfão de treinador, depois da saída de Carlo Ancelotti, e sempre endinheirado graças aos bolsos fundos do seu proprietário russo. 15 milhões por um treinador pode parecer (ou até mesmo ser) uma exorbitância por um treinador, mas era o preço que estava estabelecido na cláusula de rescisão de Villas Boas, e sabendo-se a vontade de Pinto da Costa em manter o técnico, era o preço a pagar. E durante muito tempo, parecia mesmo que o casamento entre clube e treinador ia durar pelo menos mais um ano, tantas foram as manifestações de afecto e lealdade entre um e outro. Mas o dinheiro fala mais alto do que clubismo.
Villas Boas tem agora um desafio enorme pela frente, e talvez ainda seja demasiado precoce para o assumir. Não ponho em causa a competência do treinador, bem pelo contrário. Questiono-me é se o mesmo será capaz de conseguir lidar com a pressão do dinheiro que custou e que vão custar os reforços que pedir a Abramovich. Porque Villas Boas não é Mourinho, não tem aquela capacidade para carregar com tudo às costas, libertando os jogadores da pressão (ou pelo menos ainda não a revelou). Se só a sua contratação custou 15 milhões, imagine-se se Falcao e Moutinho forem para o Chelsea, como se tem falado. Pinto da Costa já afirmou que ninguém será negociado, ou seja, quem quiser comprar, terá de pagar o que está previsto nas cláusulas. O colombiano custa 30 milhões e o centro-campista português 40 milhões. O goleador acredito que não será difícil ir parar aos blues. A relação qualidade/preço, juntamente com a idade e o rendimento apresentado nas duas épocas que leva na Europa, muito provavelmente fazem dele a melhor compra possível para qualquer grande clube em busca de um ponta de lança de topo. Agora quanto a Moutinho, a história é outra. Moutinho não é um artista, alguém que encante as plateias com fintas, golos e passes de morte. É antes um jogador discreto, mas trabalhador, lutador, com qualidade técnica e táctica que lhe conferem enorme importância nas manobras da equipa. Mas é discreto. E Abramovich para aceitar pagar 40 milhões por um médio, se calhar prefere alguém com outro estatuto, mais reconhecido internacionalmente. Caberá a Villas Boas (se o interesse for real) convencer o novo patrão das qualidades do nº 8 portista. Quanto a Hulk nem vale a pena falar. Nem o magnata russo é louco o suficiente para pagar 100 milhões. E PC, visivelmente chateado com a saída de AVB, deverá manter a palavra e não negociar abaixo das cláusulas de rescisão. Ainda para mais, estando tão iminente a saída de Falcao e de outros jogadores considerados negociáveis, como Fernando e Rolando.
Agora a questão que se coloca é a seguinte: estará o FCP tão forte como na época passada? Não sei. Villas Boas parece-me um motivador por excelência (desta característica ele não se pode desmarcar de Mourinho), capaz de virar o rumo de um jogo com uma palestra ao intervalo. Mas não ganhou o que ganhou sozinho. Vítor Pereira já foi treinador principal, embora o patamar mais elevado que atingiu (até ser promovido no Porto) foi treinar o Santa Clara na Liga de Honra. Mas enquanto esteve à frente dos açorianos, lutou pela subida até às últimas jornadas e, com a sua saída, o Santa Clara nem lá perto andou esta época. Teve um ano intenso, repleto de vitórias, durante o qual ele "bebeu" experiência de AVB, tal como ele "bebeu" da dele. Estas foram palavras usadas pelo novo treinador dos dragões, aquando da sua apresentação, tentando dar a entender que Villas Boas não foi o único responsável pelos sucessos da época. Quanto a Pinto da Costa, a aposta em Vítor Pereira pode ser encarada como uma de risco, mas a verdade é que o presidente portista já havia elogiado o novo técnico antes, dando a entender que ele poderia vir a ocupar o "trono do dragão", quando Villas Boas saísse.
Agora com 15 milhões extra para gastar, aos quais se poderão juntar pelo menos mais 30, o FCP terá margem de manobra para se reforçar de forma convincente para a nova época, especialmente se tivermos em conta que o clube já tem 3 ou 4 reforços contratados desde Janeiro, provando que não tinha grande necessidade de realizar encaixe financeiro para atacar o mercado. Resta agora esperar pela nova época e ver se não acontece o mesmo que aconteceu na era pós-Mourinho, em que o dragão parou de respirar fogo durante uma época.