segunda-feira, 23 de maio de 2011

Domingos e Sporting

Eis que finalmente se confirmou o que já todos sabíamos. Domingos Paciência é o novo treinador do Sporting. Um profissional jovem, ambicioso e, como já todos pudemos constatar, competente.

Domingos parece-me a escolha mais acertada possível para orientar os leões, num momento tão delicado como este. A crise de resultados, títulos, mas acima de tudo, a crise de exibições do Sporting exigia uma aposta deste género. Ora senão vejamos: a crise sportinguista teve início há duas épocas, quando Paulo Bento iniciou a sua 4ª temporada ao serviço dos verde e brancos. Saiu ao fim de 2 ou 3 meses, pela porta pequena, tendo sido vítima de uma enorme injustiça, não só pelos adeptos (mas já se sabe que estes são sempre os primeiros a exigir a "cabeça" do treinador), mas especialmente pela direcção. Meses antes, aquando da eleição de José Eduardo Bettencourt como Presidente do Sporting, JEB afirmou que o seu treinador era e, passo a citar, "Paulo Bento forever"! Durante o mercado de transferências pouco ou nada se viu da parte dos leões, sendo que a contratação mais sonante foi Matías Fernández, sem dúvida um jogador talentoso, mas cujos "vícios e costumes" sul-americanos lhe causavam muitas dificuldades para se afirmar no futebol europeu (fracassou no Villarreal por alguma razão). Paulo Bento teria, mais uma vez, de orientar um plantel cada vez mais escasso em qualidade, quando comparado com os dos principais rivais. Quando a situação se tornou insustentável para o actual seleccionador nacional, foi substituído por Carlos Carvalhal.

Este último é um verdadeiro caso de estudo. Treinador aparentemente competente, obteve excelentes resultados, orientando equipas com orçamentos baixos e jogadores com pouco cartel. Levou o Leixões à final da Taça de Portugal em 2002, quando os leixonenses militavam na 2ª Divisão. Passados alguns anos, assumiu os destinos do histórico Vitória de Setúbal, atingindo o 5º lugar no campeonato e vencendo a primeira edição da Taça da Liga. Isto numa época em que o objectivo dos sadinos passava pela manutenção. Excelentes resultados com recursos escassos. Mas quando se apanha a orientar um plantel de qualidade, de um clube com títulos em vista, parece que não sai da cepa torta. Primeiro o Braga, ao serviço do qual desiludiu muito, tendo abandonado o projecto alegando problemas pessoais. Seguiu-se o grande desafio da carreira, chamado Sporting. Pegou numa equipa que não escolheu, é certo. Mas até aquela data, era sem dúvida o grupo de jogadores mais talentoso que alguma vez orientou. E teve direito a algo que o seu predecessor não teve. Reforços! O Sporting que no início da época não tinha dinheiro para contratar jogadores para preencher lacunas gritantes do plantel, era agora o mesmo que tinha 3,5 milhões de euros para contratar João Pereira ao Braga e 6,5 milhões e para contratar Sinama-Pongolle ao Atlético de Madrid. Mais uma vez fracassou. A equipa jogou mal, falhou todos os objectivos e nem o 3º lugar foi capaz de assegurar, consequência, também, de uma temporada excepcional do Braga, orientado por... Domingos!

Nova época, novo treinador, novo erro de casting. Paulo Sérgio fora contratado ao Vitória Sport Clube (ou Vitória de Guimarães), quando ainda faltavam 5 ou 6 jornadas para o final da época. Tamanha pressa em assegurar um treinador e anunciar essa contratação tão cedo, seria compreensível se se tratasse de um grande nome. Mas não era esse o caso. Paulo Sérgio (curiosamente, também ele com o nome Bento lá pelo meio) havia feito um trabalho interessante no Paços de Ferreira e no Vitória, mas não tinha atingido um nível ou resultados que justificassem a aposta leonina. Arriscaram num treinador sem experiência a lidar com momentos de grande pressão, até mesmo quando era jogador. Mas também ele foi vítima de uma política de contratações sem critério por parte do Sporting. Exemplo mais flagrante: Paulo Sérgio afirma publicamente que a equipa precisa de ser reforçado com um "pinheiro" para o ataque, entenda-se um ponta de lança alto e forte fisicamente, algo que não havia no plantel. E o que é que lhe sai na rifa? Tales, médio de ataque brasileiro com uns "impressionantes" 165 cm! Para piorar, numa entrevista cedida recentemente pelo ex-treinador do Sporting ao jornal "A Bola", este afirmou que tinha chumbado a contratação de Tales por considerar que não tinha qualidade nem se enquadrava naquilo que queria para a equipa. Aguentou enquanto pôde, mas inevitavelmente acabou por sair. Seguiu-se José Couceiro, contratado semanas antes para ser dirigente, via-se forçado a assumir o banco de Alvalade. Foi aguentar o barco até ao final do campeonato, alcançando o 3º lugar, objectivo mínimo estabelecido.

Agora segue-se Domingos Paciência. E o que faz de Domingos um treinador diferente dos seus antecessores, para que possa ser visto como uma solução para a crise? Primeiro: os resultados estão à vista. Em duas épocas no comando do Sporting de Braga, Domingos alcançou a melhor classificação de sempre do clube no campeonato, ficando em 2º lugar e, para além de ter marcado presença na Liga dos Campeões (onde, segundo a UEFA, foi o melhor clube estreante de sempre da competição), alcançou a final da Liga Europa, eliminando alguns gigantes futebolísticos do "Velho Continente". Segundo: enquanto jogador, Domingos fez uma carreira de muito bom nível. Foi várias vezes campeão português ao serviço do Futebol Clube do Porto, passou pelo campeonato espanhol (embora ao serviço do modesto Tenerife) e foi várias vezes internacional por Portugal, tendo marcado presença no Euro 96. Esta carreira permitiu-lhe aprender a lidar com a pressão de vencer, fazendo dele uma pessoa preparada para obter resultados. Terceiro: é português, logo está identificado com o nosso campeonato e as suas especificidades. Conhece bem o plantel do Sporting e as suas lacunas e, sabe que não é preciso ir muito longe, nem gastar muito dinheiro para contratar bons jogadores para servir os leões.

Daí que se possa esperar muita actividade entre o Sporting e outros clubes portugueses, no que diz respeito a transferências. A meu ver, Domingos insistirá na contratação de pelo menos um defesa central (para além do quase garantido Albert Rodríguez, seu jogador no Braga, fala-se em Alex Silva do São Paulo), um defesa esquerdo (Evaldo deverá manter-se, mas Grimi deve receber guia de marcha) e pelo menos dois ou três médios (o número poderá variar de acordo com a táctica que ele quiser implementar). Quanto a avançados, só vejo Postiga e Djaló com condições para continuar. Logo, deverão chegar 2 ou 3 nomes para a frente de ataque (fala-se muito em Bobô do Besiktas). Se lhe derem autonomia para decidir quem se adequa melhor aos interesses do Sporting, ele poderá ter sucesso. Mas, se pelo contrário, não o deixarem ter uma voz de peso na política de contratações, o tiro poderá sair pela culatra! Deve ser o treinador a indicar os jogadores que quer à direcção e nunca o oposto. O problema é que o Sporting é gerido por novos elementos. Pessoas que prometeram nomes sonantes e que agora têm de os apresentar. Mas de que serve ao Sporting contratar jogadores com um nome conhecido, se não conhecem a realidade do futebol português? Bobô e Alex Silva poderão vingar. Não terão o problema da barreira linguística e têm compatriotas no plantel que podem facilitar a adaptação. Agora jogadores como Wendt, defesa esquerdo do Copenhaga e Zahavi, médio ofensivo do Hapoel Tel Aviv, não me parecem opções muito inteligentes. Há quanto tempo não vemos um jogador nórdico a vingar em Portugal? E quantos israelitas há por essa Europa fora, que se possam considerar jogadores de sucesso? O melhor para o Sporting seria apostar no que de bom há em Portugal. Precisam de centrais? Para além de Rodríguez, Felipe Lopes do Nacional ou Paulão do Braga, são jogadores com provas dadas e qualidade constatada. Querem um lateral esquerdo para fazer concorrência ao Evaldo? Bruno Teles do VSC é um jogador a ter em conta. Médios/Extremos? Targino, João Ribeiro, João Aurélio, Bruno Gama, Mihelic, Skolnik, Luís Alberto, entre outros. Avançados? Babá ou João Silva podem ser opções. Este tipo de política de contratações já foi adoptado no passado e com bastante sucesso. José Mourinho quando treinou o Porto contratou jogadores como Derlei, Tiago, Nuno Valente (todos ao Leiria), Paulo Ferreira (Vitória Futebol Clube), Maniche (perdido na equipa B do Benfica) e Pedro Mendes (Vitória Sport Clube). À excepção de Tiago, todos os outros foram apostas ganhas, jogadores que foram fundamentais nas conquistas do clube.

Jogadores portugueses (ou que actuem em Portugal) de qualidade, e dois ou três jogadores estrangeiros que se assumam como claras mais valias, seriam as apostas mais seguras e inteligentes que o Sporting poderia fazer. No entanto, a primeira contratação dos leões para a nova época, parece indicar que não será esse o caminho a seguir. André Carrillo, promissor jogador peruano. Um atacante, que pode jogar descaído sobre uma ala ou no centro do ataque. Um jovem de 19 anos, que nunca jogou fora do Peru e que agora vem para um clube que, em condições normais, tem toda a legitimidade para ambicionar títulos, todas as épocas. Parece-me arriscado. Agora fala-se em Rinaudo, um médio defensivo argentino. É internacional pelo seu país, mas o Luís Loureiro também foi internacional por Portugal em mais do que uma ocasião. Sabem quem é ele? Pois...

Resumindo e concluindo, para que Domingos Paciência tenha condições para recolocar o Sporting no caminho certo, é preciso que o deixem escolher os reforços, que o deixem identificar as os sectores que precisam de ser reforçados. Ele já provou que quando o deixam limar as arestas, as coisas correm bem. No início da época que agora findou, Domingos viu o Braga com um excesso de jogadores nuns sectores e jogadores a menos noutros. Oportunidades de negócio que o ambicioso Presidente bracarense não quis desperdiçar. Porém, o futebol real é bem diferente do Football Manager. Não é possível ser bem sucedido, comprando tudo o que mexe! Em Janeiro, foram "despachados" inúmeros jogadores, dando origem a um plantel mais curto, mas mais equilibrado e sem excessos. Em compensação, foram efectuadas aquisições cirúrgicas que permitiram dotar o plantel com mais qualidade. A primeira volta desapontante do Braga deu lugar ao que se viu. Luta pelo 3º lugar até à última jornada e final da Liga Europa. Portanto, para que o Sporting volte a ser grande, basta não inventar, não comprar por comprar.

Resta-me desejar boa sorte a Domingos Paciência e ao Sporting Clube de Portugal, pois ambos merecem ter sucesso.

2 comentários:

  1. Pois merecemos meu bandido!!!

    Bons textos sim senhor...gosto de ler as tuas palestras... Não é nenhuma Linha Avançada mas com Esforço, Dedicaçao e Devoção poderás eventualmente chegar à Glória...

    Aquele abraço

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  2. Eh eh. Obrigado amigo! Tive uns dias ausente, por isso não andei a postar nada entretanto. Agora vou voltar a escrever "palestras"!

    Abraço

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